E então chegou o dia em que ele não voltou. Era fato que passei 278 dias esperando pela hora do não-retorno. Mas quando realmente aconteceu foi diferente. Já havia ensaiado mil diálogos que viria a travar com o espelho e feito a lista das 35 coisas a que me dedicaria quando ele se fosse, mas quando realmente aconteceu, só me veio a calma. Foram 278 dias de tempestade e quando pensei que chegaria o armagedon, veio a calmaria. (odeio ditados populares). Abri a janela depois de anos no escuro e me alimentei de toda luz que havia na varanda. Suguei toda ela e ficou noite lá fora, só eu que era dia. Fui luz por muito tempo ainda e fui calma até a próxima gota de água que me caiu no nariz apagando a chama. E então chegou o dia em que ele bateu a porta, trazendo uma garrafa de café e o disco do Dylan que queria ouvir comigo. Derreti aos seus pés e ouvimos Bob Dylan bem alto que era pra abafar o som da tempestade que caiu incessantemente a noite inteira.
Das saudades que eu tenho? Subir a rua Alabama e chegar na 17.
Recordo caminhar por uma Cidade do México fria, cinzenta e poluÃda, lábios secos e nariz sangrando. (Quase) nunca faltaram pés que aquecessem meus pés, mas lembro ir dormir muito tarde e acordar muito cedo pra uma cidade vazia e escura e insisto em acreditar que aquela tristeza que me dava te ver dormir tão manso enquanto me deixavas ir embora sem medo, diariamente, foi algum tipo de sinal. Das camas alheias a tua foi minha favorita. Outro dia vi que redecoraste a casa toda e aquela cama se foi em algum caminhão, e tive certeza de que nossa história nunca escrita já tinha perdido seu lugar: ele segue seu caminho pela avenida Revolución e eu fico aqui mesmo, pra pegar Patriotismo. (Nossas avenidas desde sempre nos indicavam caminhos opostos, desavisada nunca fui). Até hoje sorrio ao escutar as músicas que você me apresentou. Sempre te lembro cantando, igual aquele dia quando saà do banho e te espiei do corredor: violão na mão, cantando de olhos fechados, pra um público invisÃvel, minha...
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