E então chegou o dia em que ele não voltou. Era fato que passei 278 dias esperando pela hora do não-retorno. Mas quando realmente aconteceu foi diferente. Já havia ensaiado mil diálogos que viria a travar com o espelho e feito a lista das 35 coisas a que me dedicaria quando ele se fosse, mas quando realmente aconteceu, só me veio a calma. Foram 278 dias de tempestade e quando pensei que chegaria o armagedon, veio a calmaria. (odeio ditados populares). Abri a janela depois de anos no escuro e me alimentei de toda luz que havia na varanda. Suguei toda ela e ficou noite lá fora, só eu que era dia. Fui luz por muito tempo ainda e fui calma até a próxima gota de água que me caiu no nariz apagando a chama. E então chegou o dia em que ele bateu a porta, trazendo uma garrafa de café e o disco do Dylan que queria ouvir comigo. Derreti aos seus pés e ouvimos Bob Dylan bem alto que era pra abafar o som da tempestade que caiu incessantemente a noite inteira.
Demonstrando uma vez mais ser de insensibilidade e egoÃsmo excepcionais, me disse, como se proclamasse um elogio: "Você foi protagonista do meu ano". DO-MEU-A-NO. Ecoou. Calei. Me preservei. Se dissesse a verdade, ele ganharia de novo. Ele sempre ganhava. A verdade, aqui lhes conto sem medo, é que eu quis ele que fosse o grande protagonista da minha vida. Casar no Timbuktu, amar pra sempre, comprar móveis e o caralho a quatro. PARIR SEUS FILHOS, isso sim é um elogio, baby.
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