A menina e o monstro.

Ontem o monstro que mora na minha barriga acordou. Lembro que quando era pequena e chorava pra minha mãe da dor do monstro na barriga ela me enchia de remédios e eu dormia gostoso, dopada. Hoje, a quantidade de remédios que se toma pra cólica intestinal não é suficiente pra dopar e depois de ter experimentado um ou outro psicotrópico narcótico entorpecente estimulante alucinógeno, aprendi que o monstro volta mais forte no dia seguinte. Ele cresceu com cada colherada de aveia e biotônico que meu pai me forçou goela abaixo quando me recusava a almoçar e com cada gole de vinho que tomei na adolescência e com cada cigarro fumado pra acalmar a cabeça. Cresceu mais que eu, pobre do meu pai que desperdiçou biotônico. O que acontece é que ontem o monstro acordou, já fazia algum tempo que não me incomodava. Ontem, no entanto, decidiu recuperar o tempo perdido e me falou de coisas horríveis, o monstro. Me fez desacreditar no mundo e me fez querer vomitar. Ontem eu sentava a dois centímetros de um palco onde uma banda de cera tocava quando o monstro acordou. Percebi sua presença porque senti um frio gigantesco na orelha que não entendi da onde vinha. Tentei resolver com uma golada de pinga mas foi em vão. Tentei me concentrar na banda de cera mas ela não era de verdade. Foi quando ouvi sua voz e quis que não fosse real. Era. O mundo se deformou em uma fração de segundo e pra todo lado que olhei algo me pareceu errado. Saí correndo, o vento gelado de maio fazendo o rosto arder, um medo absurdo dos loucos da rua; entrei em casa, tranquei a porta e caiu a lágrima. Caiu queimando, gostoso. E não entendi se o problema foi a força do sentimento ou a falta de. O monstro não me deixou dormir e pensei por um momento que talvez não devesse mesmo. Bati a cabeça na parede com toda a força que ainda tinha, senti um filete de sangue frio escorrer na nuca e acordei hoje as três da tarde no azulejo frio do banheiro com o sol cegando os olhos. Nem sinal do monstro. Só a ressaca.

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