Sobre um corpo adormecido
Ele sempre falava sobre a nudez ser overrated mas eu nunca concordei, até porque sempre achei que a visão daquele corpo nu se levantando da cama de manhã era infinitamente mais bonita que qualquer sol se pondo em dia de inverno. Acontece que agora esse corpo nu mais bonito que qualquer sol se pondo em dia de inverno é apenas um corpo nu adormecido ao meu lado. Eu sou toda amor e o corpo é só um corpo adormecido. É sentimento demais pros meus um metro e cinquenta e nove de carne e osso então transbordo no lençol, mancho as paredes e esfrego nele toda a energia cor-de-rosa que escorre de mim. Não acorda. Tiro a coberta e vejo o arrepio dos pêlos. Não me comove. Pego a caneta e escrevo juras de amor por todo seu corpo, meus dedos se transformam em mochileiros que viajam por terras estrangeiras e deslizam pela pele lisa da ponta do nariz ao dedão do pé, sua cabeça se inclina inconsciente contra meu peito (contra?) e todos os instintos maternos (castigo da condição feminina) afloram e eu abraço e cuido e como a mais burra prostituta dou o que ele nem mesmo pede. Acorda, se veste e vai embora. E eu apenas um corpo nu adormecido transbordando por todos os poros.
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