Capítulo único
Um silêncio amedrontador me acordou. Respirei fundo e o cheiro adocicado de qualquer coisa parecida com alecrim gelou a espinha. Pêlos eriçados, andei ronceiramente até a cozinha e percebi que as rosas haviam murchado. É o sinal da partida, concluí, pensando que morria pela menor das dúvidas. Por alguma razão bizarra ou talvez estúpida eu sabia que se as rosas murchassem ela iria embora, e sabia também, com a mesma certeza bronca que elas viriam a murchar, eventualmente. Vertigem; desejo irresistível? As paredes desapareceram e era só azulejo gelado. Nunca tive muito mas ela era o pouco que amei quase como posse (por isso a chamava de meu bem). Apareceu em minha porta mendigando amor e eu, cético buscando diversão lhe ofereci um pouco num prato com arroz e feijão do dia anterior, que ela devorou vorazmente. Pedia mais todo dia, acordava no meio da noite roçando o rosto no meu rosto e se não lhe dava atenção miava até a vizinhança toda despertar. Pouco a pouco me acostumei com sua presença e dela fiz certeza. Cuidei como se cuida um recém nascido abandonado em sua porta numa cesta. Até o dia em que as rosas murcharam. Me quebrou os braços, sangrou meu nariz e arroxeou meus olhos, encharcou a casa de querosene e pôs fogo. E eu ali caído, pensando inutilmente que não se deve amar demais. O gato, bicho oportunista (não é o que dizem?) ficou ao meu lado até o fim. Tudo o que lembro é dele fungando meu nariz pra se certificar da ausência de inspiração/expiração. Começou pela bochecha.