Por aqui tudo me acontece pelo avesso, durmo de noite e passo os dias acordada, descanso em uma cama que não é minha olhando prum teto que não reconheço, dirijo pela cidade e não vejo ninguém (curiosamente me identifico sempre com os bêbados e mendigos). Uma sede arrebatadora me acordou essa manhã, já bebi doze copos de água desde então e a boca continua seca. A crise literária me pegou pelos pés e estive pendurada de ponta cabeça há horas. Essas palavras que escrevo não são minhas e não sou capaz de organizar direito os pensamentos. Tive frio e não houve cachaça que esquentasse, tive fome e poesia nenhuma me saciou. Julho me faz mal, logo faço vinte anos no lugar onde nasci, cresci e produzi, amei e morri. Tudo que consigo pensar é que merda!
Das saudades que eu tenho? Subir a rua Alabama e chegar na 17.
Recordo caminhar por uma Cidade do México fria, cinzenta e poluÃda, lábios secos e nariz sangrando. (Quase) nunca faltaram pés que aquecessem meus pés, mas lembro ir dormir muito tarde e acordar muito cedo pra uma cidade vazia e escura e insisto em acreditar que aquela tristeza que me dava te ver dormir tão manso enquanto me deixavas ir embora sem medo, diariamente, foi algum tipo de sinal. Das camas alheias a tua foi minha favorita. Outro dia vi que redecoraste a casa toda e aquela cama se foi em algum caminhão, e tive certeza de que nossa história nunca escrita já tinha perdido seu lugar: ele segue seu caminho pela avenida Revolución e eu fico aqui mesmo, pra pegar Patriotismo. (Nossas avenidas desde sempre nos indicavam caminhos opostos, desavisada nunca fui). Até hoje sorrio ao escutar as músicas que você me apresentou. Sempre te lembro cantando, igual aquele dia quando saà do banho e te espiei do corredor: violão na mão, cantando de olhos fechados, pra um público invisÃvel, minha...