Sobre o verão de 2014
Aquele tinha sido o verão mais quente desde 1996. Nenhum de nós havia estado ali em 1996 para poder comparar, mas o simbolismo da estação nos afetava por igual. Quando as noites são quentes, é impossível dormir e quem não dorme peca mais. O calor aproximava nossas mentes e separava nossos corpos, parecíamos de repente adolescentes confusos tentando entender qualquer coisa sobre a vida. Sobre um Bukowski ou outra obra qualquer esticávamos o branco e brando futuro da noite: promessa de grandeza, sempre. E amanhecíamos 32 graus com as mesmas roupas suadas, os pulmões cansados e vozes roucas. Amanhecíamos meio destruídos, meio desconstruídos, com muito calor e pouco amor. Éramos parceiros, cúmplices de crime, todos juntos lembrando o outro que a tristeza não existe e que filosofia sempre mata solidão. Era difícil tentar não se afogar diariamente na onda de calor. Era inevitável não pensar em estações passadas, em estações futuras.
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