Enquanto as mãos dele corriam firmes pelo seu corpo ela tremia. Não era desejo, curiosamente, a provocar-lhe a sensação insólita. Seus sentimentos não vinham do útero, nada tinham a ver com a ideia de um ventre não fecundado, com a antecipação do amor desperdiçado lhe escorrendo pelas pernas com a menstruação do mês seguinte. Ela gemia e sabia que não era uma foda qualquer que calaria suas ânsias dessa vez. Naquela cama minúscula, pela primeira vez se despiu de todos os receios e sofreu com a descoberta de um vazio que ninguém mais lograria preencher. Olhando pra ele chorou, sem conseguir pronunciar a confissão: precisava que lhe enchesse o corpo de vida e sem ele, ela (e o corpo) nunca seria(m) completa(os). Precisava daquele homem mais perto. Dentro. Incorporado. Impregnado.
Hoje me apaixonei por você
Já faz um tempo que ando meio cansada de todo esse lance de sedução, sabe? Acho que perdi a mão. Nem saberia como demonstrar interesse. Em vez disso, te vejo com o computador aberto e sento na tua frente. Abro o meu e trabalho. Gostaria de não estar em um lugar público agora, poder ouvir um som e descobrir teu gosto musical. Em vez disso, conversamos amenidades baixinho pra não atrapalhar ninguém. Te conto dos meus planos pro futuro e você sorri tão bonito, diz que acha legal. Porra cara, que sorriso bonito. Vem comigo?, da vontade de dizer. Mas acho que nem consigo te sorrir de volta, escondo as vontades bem escondidas sem saber porque. E penso em ti, tão perto, tão longe: tão clichê. Penso no teu corpo, no abraço, beijo, mão minha no teu cabelo, pele, costas, peito. Penso em desejos que serão reprimidos mais tarde no meu quarto e calo. Calada e fria, te vejo levantar e ir embora. Tchau. E a vontade de pedir pra não ir embora? Engulo.