tinha sede e nem sabia direito de que era. amanhecia às sete da manhã e a última pessoa que queria em sua cama era ele, mas sabia que por alguma razão aà estava. podia não ter deixado ele entrar no banheiro, ter recusado o beijo e a carona, não ter fingido acreditar na mentira de que já não podia dirigir, deixado ele dormir no sofá, deixado ele dormir no chão do quarto, deixado ele dormir no pé da cama, ter dito não quando lhe tirou a calcinha e a série de acontecimentos que o fizeram acreditar que tinha o direito de estar ali. seu celular tocava enquanto eles gemiam. se vestia contando uma mentira qualquer pra esposa e ela fumava um cigarro repetindo mentalmente que a culpa não existe. lembrou de uma noite bonita na cobertura de uma antiga casa e pensou que no Brasil as estrelas brilhavam mais. imediatamente a urgência de lavar os lençóis e as fronhas, a calcinha, o colchão no sol antes de acender o próximo cigarro.
Masoquista
Em uma interminável luta contra meu eu mais lúcido te procuro em toda parte e felizmente é sempre em vão. Na minha cabeça passam os trechos como um filme daquele filme que fizeste no Rio de Janeiro. Fecho os olhos e o sol se põe mil vezes na baÃa de Guanabara, meus cabelos ao vento e aquela luz tão melancólica. O som da tua risada não consigo esquecer. A voz é a primeira das lembranças a fugir, me contaram uma vez mas eu, mesmo tendo queimado há meses minha cópia do teu filme, quando fecho os olhos e vejo o sol se por em um loop infinito, ouço claramente o som da tua risada. Estive na Lapa outra vez semana passada, mas cruzei a ponte Rio-Niterói antes mesmo de nascer o dia, tive medo dos teus ecos. Me arrependi depois e busquei por todas partes aquele filme que fizeste. Era vontade de doer, eu acho. Continuo procurando restos nossos, vez ou outra. Por sorte, é forte o medo de procurar em teu presente, arriscar descobrir que tua felicidade hoje contrasta com a minha l...
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